Notícia

Tania Bacelar: A economia de Pernambuco – uma visão positiva

Tania Bacelar de Araujo é economista, Mestre e Doutora em Economia pela Universidade de Paris Panthéon-Sorbonne e sócia-diretora da Ceplan Consultoria Econômica
29 de Agosto de 2022

29 - Ago

Artigo publicado originalmente no Movimento Econômico em 26 de Agosto de 2022 e escrito por Tania Bacelar*

Neste artigo, a economista Tania Bacelar de Araujo, aponta diversas razões para Pernambuco continuar atraindo investidores.

Na atual conjuntura de crise mundial e nacional, tendem a ser destacadas dificuldades e evidenciados aspectos negativos da realidade econômica estadual. O ambiente pré-eleitoral tem reforçado esta visão. Quem não conhece o estado de Pernambuco e está querendo aqui investir, pode ter uma leitura equivocada do ambiente econômico pernambucano. Tenho, no entanto, uma visão diferente e positiva.

O estado aproveitou e construiu ativos importantes, em especial neste século, e sua atividade econômica – medida pelo Produto Interno Bruto (PIB), vem apresentando desempenho acima da media nacional.

Quando o país mergulha na crise atual, que a pandemia ampliou, Pernambuco vinha vindo de um bom momento econômico, em especial porque, entre 2007 e 2013, captou um importante bloco de investimentos (volume estimado em cerca de 2/3 de seu PIB) e ele deixou um saldo muito positivo. Cabe destacar que a presença do Complexo de Suape foi importante, visto que a existência de um distrito industrial acoplado a um porto moderno teve poder de atração relevante, tanto que ele abriga, atualmente, 224 empresas, tendo atraído investimentos de grande porte em petróleo, petroquímica e indústria naval, equipamentos destinados à geração de energia eólica, produção de bebidas e alimentos, entre outros como plantas da indústria farmacêutica.

Num contexto no qual o Brasil perdia consistência industrial, o bloco de investimentos aqui aportado centrou-se na indústria (cerca de 2/3 do volume captado), o que fez a economia estadual marchar na direção oposta a do país no seu conjunto, se reindustrializando. A indústria de Pernambuco tem hoje quase 1/3 do emprego industrial da região Nordeste e seu peso na economia regional é cerca de 1/5.
Pernambuco diverso, crescendo também no interior

Trouxemos, por exemplo, naquele instante, o complexo automotivo instalado na Mata Norte, que disseminou sistemistas no entorno, valorizou a utilização de mão de obra local (mais de 2/3 são do entorno) e se articula com outros segmentos da base produtiva estadual. A articulação com o Grupo Moura – fundado no Agreste pernambucano para fabricação de baterias, em 1965 – merece destaque, posto que estão associados para realizar pesquisas que levem ao desenvolvimento de veículos elétricos, uma das macrotendências do mercado mundial.

O fato é que, enquanto a velha indústria automotiva fecha suas fábricas Brasil afora, Pernambuco sedia um complexo automotivo ligado hoje a um grupo mundial que disputa liderança nas mudanças que virão nos próximos anos neste segmento. Assim, a nova indústria automotiva do Brasil tem endereço: Pernambuco.

Em paralelo, sua base agropecuária se transformou, consolidando polos produtivos importantes como o da fruticultura do São Francisco e abrigando novos. O polo avícola é um deles, Pernambuco sendo, hoje, o maior produtor do Nordeste. A pecuária leiteira aliada à indústria de laticínios coloca o estado em segundo lugar na região.

Em paralelo, a base universitária vem avançando no ensino, pesquisa e extensão da agroecologia, conhecimento que tende a transbordar para a base agropecuária em transformação no estado, em particular a dos numerosos produtores familiares de alimentos. O importante “choque de inovação” para elevar a produtividade dessa base produtiva, num contexto no qual o bioma caatinga tende a ser visto na sua riqueza, em tempos de avanço da bioeconomia, está mais perto! E a população tende a preferir alimentos saudáveis.

Por fim, o terciário pernambucano se expandiu, se diversificou e se interiorizou, fortalecendo cidades de porte intermediário no interior do estado. Tanto que a Região Metropolitana do Recife, mesmo abrigando fatia dominante dos investimentos novos, sendo o polo de comando da fase mais positiva, perdeu peso relativo na economia estadual: representava 66% em 2002 e cai para 57% em 2018, resultado de pujança do interior…

Não é à toa que entre candidatos ao Governo Estadual, três protagonistas vêm de cidades do interior: Caruaru, Surubim e Petrolina. Caruaru e Petrolina foram atores relevantes no movimento de interiorização do desenvolvimento estadual, impactando positivamente seu entorno, para não falar de outros polos, como o de Serra Talhada, que me surpreende a cada dia, e da região de Garanhuns e entorno, que também vem abrigando novas iniciativas.

O mais relevante é que o estado dispõe agora, em especial no interior, de um novo ativo: jovens razoavelmente qualificados, resultado da interiorização da rede de escolas de nível médio em tempo integral e da base universitária. Uma juventude ávida por estímulos e apoio para contribuir, como empreendedor ou como trabalhador, na expansão da economia estadual.

Nos serviços, merecem destaque especial, em Pernambuco, os chamados serviços especializados. Dentre eles, os serviços médicos, com a capital, o Recife, abrigando o segundo maior polo do país, e em ebulição no momento, sinalizando para novos investimentos e novo padrão organizacional. Isso no momento em que a pandemia chamou a atenção dos países, inclusive o Brasil, para a valorização do complexo econômico da saúde. Pernambuco tem tudo para engatar neste movimento incluindo alguns polos regionais de serviços de saúde, como o de Serra Talhada.

Outros destaques nos serviços especializados são os serviços jurídicos, os de engenharia consultiva, os de apoio à gestão empresarial, entre outros. Gente qualificada e empreendedores ousados construíram este ativo.

Os serviços de logística, por sua vez, foram fortalecidos pela presença de Suape e o estado vem reafirmando esta sua antiga vocação. Atento às mudanças nos padrões de logística mundial, Pernambuco vem ampliando seu protagonismo neste campo contando com vários polos de distribuição ao longo de seu eixo Leste-Oeste.

Um último destaque é a rica e diversificada base cultural do estado, que pode se articular com varias outras atividades (como os serviços ligados ao turismo), via economia criativa, atividade que emprega muito e ganha força mundo a fora.

Portanto, temos sementes férteis para avançar rumo ao futuro. Não podemos olhar apenas para o retrovisor, pois muitas mudanças em curso no mundo são de caráter estrutural, vieram para ficar e a pandemia as acelerou… Elas desafiam, mas também estimulam Pernambuco.

O mundo ruma firme, por exemplo, para consolidar a era digital e avançar na era das energias limpas como elemento de partida para a descarbonização, o que reforça a importância de serviços especializados. E Pernambuco tem ativos relevantes para ser agente importante destas mudanças.

A presença do ecossistema construído em torno do Porto Digital (hoje abrigando 350 empresas e cerca de 15 mil colaboradores) e a tradicional e competente base científica e educacional do estado fazem de Pernambuco um polo irradiador da aplicação de novos conhecimentos e gerador de serviços especializados crescentemente relevantes. O Porto Digital é fruto da base competente de educação, ciência e tecnologia e da capacidade empreendedora de pernambucanos, e pode ser um habilitador da transição para a era digital da base produtiva vinda da era analógica. Poucos lugares no Brasil tem este potencial.

Para a transição rumo ao desenvolvimento sustentável, a presença proeminente do estado nos mapas brasileiros dos ventos e do sol, já deu o start para os avanços na mudança da matriz energética. Em paralelo, a produção de etanol e biogás a partir da biomassa da base canavieira, vem se firmando. E grandes grupos mundiais já negociam presença em Suape para produzir o hidrogênio verde.

O principal desafio de Pernambuco não está na dinâmica ou estrutura de sua economia, mas no direcionamento do seu processo de desenvolvimento. Os dados do mercado de trabalho (alto desemprego, crescente informalização, elevada subutilização deste potencial produtivo) são alerta nesta direção. Aí está a verdadeira fragilidade de Pernambuco: seu quadro social. Com cerca de 4,7% da população brasileira o estado representa apenas 2,6% do PIB do país. Este hiato estrutural requer enfrentamento especial. Este seria um foco de discussão central para pensar o futuro com uma aposta firme na qualificação dos recursos humanos, o que requer propostas consistentes que dialoguem com as mudanças em curso no mundo e com os ativos aqui referidos.

Notícias Recentes

Soluções

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nosso site.
Ao utilizar nosso site e suas ferramentas, você concorda com a nossa Política de Privacidade.

Ceplan - Política de Privacidade

Esta política estabelece como ocorre o tratamento dos dados pessoais dos visitantes dos sites dos projetos gerenciados pela Ceplan.

As informações coletadas de usuários ao preencher formulários inclusos neste site serão utilizadas apenas para fins de comunicação de nossas ações.

O presente site utiliza a tecnologia de cookies, através dos quais não é possível identificar diretamente o usuário. Entretanto, a partir deles é possível saber informações mais generalizadas, como geolocalização, navegador utilizado e se o acesso é por desktop ou mobile, além de identificar outras informações sobre hábitos de navegação.

O usuário tem direito a obter, em relação aos dados tratados pelo nosso site, a qualquer momento, a confirmação do armazenamento desses dados.

O consentimento do usuário titular dos dados será fornecido através do próprio site e seus formulários preenchidos.

De acordo com os termos estabelecidos nesta política, a Ceplan não divulgará dados pessoais.

Com o objetivo de garantir maior proteção das informações pessoais que estão no banco de dados, a Ceplan implementa medidas contra ameaças físicas e técnicas, a fim de proteger todas as informações pessoais para evitar uso e divulgação não autorizados.

fechar