Por Aldemir do Vale – Artigo publicado originalmente no Movimento Econômico em 23 de julho de 2021

No World Investiment Report 2018 a Unctad (United Nations Conference for trade and development) faz um balanço sobre investimento e política industrial.  O levantamento foi feito tanto em países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento. A partir de dados com cobertura de dez anos de 114 estratégias industriais formais, os autores constatam que a “política industrial recuperou popularidade entre os policy makers….”,  nos dois grupos de países. Não é simples entender as razões para essa mudança de atitude.

O conceito de política industrial ainda é visto – e a crítica foi mais contundente no passado – como sinônimo de interferência indevida do estado na economia.[1] Em parte, Isso se deve ao esforço requerido de recursos públicos para financiar investimentos em infraestrutura, energia, logística e obras necessários e complementares às políticas industriais. Por outro lado, as críticas punham em dúvida a insuficiência da capacidade de coordenação na implementação dessas políticas em qualquer política industrial. Não há espaço para entrar nas minúcias do esforço requerido para estado e iniciativa privada cooperarem com a finalidade de implementar uma política industrial.

Entretanto, o revivescimento da política industrial abre espaço a recuperação para além da popularidade mencionada e, em boa hora, quando – depois dos efeitos da crise financeira e agora da pandemia – aos formuladores de política couber talento e criatividade, para confrontar as difíceis negociações e mobilização de recursos governamentais necessários em qualquer política industrial.

Com efeito, muito será cobrado em ações e operação por todos, empresários e governos, para viabilizar projetos da complexidade e envergadura das políticas industriais. Há razões de sobra para justificar o retorno do interesse nessa iniciativa: a  pressão para reduzir o desemprego; o crescimento da concorrência no comercio internacional, no investimento e na competitividade; o fenômeno da desindustrialização prematura;  a importância das cadeias globais de valor; e o desenvolvimento sustentável e de crescimento inclusivo. Em resumo, mais que oportuna a volta de política industrial à posição que merece como instrumento de política econômica. Conforme assinalado, o número apontado de políticas industriais impressiona. A experiência mostra que são raros os casos de países em desenvolvimento que se desenvolveram sem contar com o apoio da indústria. Por outro lado, nos países desenvolvidos a preocupação é interromper o declínio de sua atividade industrial – a desindustrialização prematura, um fenômeno originário da globalização. 

[1] Sobre o conceito de política industrial, ver Proposta de uma política industrial para o estado de Pernambuco, Recife, FiEPE, 2013 (capítulo 3).

Aldemir do Vale é economista pela UFPE, Mestre em Economia pelo PIMES-UFPE e Doutor em Economia pelo IE-Unicamp e sócio da Ceplan

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