Por que a Inflação está de volta?

Artigo Publicado originalmente no Movimento Econômico em 10 de Setembro de 2021

A inflação está de volta, mas não na intensidade em que a experimentamos nos anos oitenta e primeira metade dos anos noventa. Ela se aproxima do que vivenciamos em 2015-2016. Agora, em 12 meses, ela se aproxima, medida pelo IPCA, de 10%. Por enquanto! Essa inflação é diferente nas suas origens. Ela vem, de um lado, da disrupção das cadeias globais e locais de suprimentos causadas pela recessão induzida pela pandemia. De outro, decorre de um deslocamento da demanda por serviços, bens intangíveis, para bens tangíveis, especialmente bens duráveis. Isso foi consequência da crise sanitária que penalizou severamente o setor de serviços que, em muitas de suas atividades, especialmente as prestadas às famílias, exigiam presença física.

 Os preços dos bens tangíveis (manufaturados e agropecuários) subiram relativamente mais do que os preços dos bens intangíveis (serviços prestados às famílias e às empresas e outros serviços). Com o avanço da vacinação essa diferença está se reduzindo à medida que a demanda por serviços aumenta com a flexibilização das regras sanitárias, especialmente as relativas às aglomerações.

Há também um choque de preços via câmbio, preços das commodities e da energia, tanto fóssil quanto elétrica.  Os preços das commoditties que o Brasil exporta cresceram 50% em 12 meses, embora algumas já estejam em declínio ou desacelerando. Por mecanismo equalizador os preços dos alimentos e minérios domésticos se alinham com os preços internacionais, gerando inflação de alimentos e matérias primas para os brasileiros. Por outro lado, os preços dos combustíveis crescem pelo efeito combinado de elevação dos preços do petróleo junto com a política da Petrobras de sincronizar os preços domésticos com os preços internacionais. Para piorar a situação, vivemos uma crise hídrica que, por causa da nossa ainda grande dependência da matriz hidroelétrica, gerou um aumento substantivo nos preços da energia. Recentemente seu preço subiu quase 7% com um forte efeito disseminador sobre os demais preços da economia. Os bens que compões a cesta do IPCA de agosto apresentaram um índice de difusão de 72%, significando que esse foi o percentual de bens cujos preços se elevaram no mês. Cada vez mais, os preços estão sendo contaminados pela inflação.

Quanto ao câmbio, o real foi a moeda que mais se desvalorizou com relação às dos países emergentes, quase 30% acima da média. Dólar elevado torna bens e serviços importados mais caros, transmitindo esse aumento por todo o sistema econômico. E por que o Real está tão desvalorizado? Há razões internas e externas. As mais importantes são internas. O risco fiscal com a discussão sobre romper ou não o teto dos gastos junto com a polêmica dos precatórios, tem elevado a desconfiança dos agentes econômicos nacionais e internacionais   de que o país seja fiscalmente ainda mais indisciplinado nos próximos meses quando se avizinha o período eleitoral. Por outro lado, o risco Brasil está subindo medido pelo CDS devido ao conturbado ambiente político interno que se agravou com os ataques do Presidente Bolsonaro ao STF e a princípios que lastreiam a Constituição Federal de 1988.  Aumentos no risco fiscal e no risco Brasil conduzem ao adiamento de decisões de investimentos por estrangeiros e brasileiros, à evasão de divisas -seja para investimento direto ou especulação- por aversão ao risco e, pela mesma razão, a não trazer dólares dos exportadores que se encontram depositados em bancos fora do país. Ficando mais escasso, o preço do dólar aumenta. De acordo com estimativas do mercado financeiro, o Real deveria valer R$ 4,32 quando, de fato, está precificado em torno de R$ 5,32.

Para complicar, a inércia inflacionária voltou à cena. A inflação passada está sendo carregada para a frente via expectativas e negociações coletivas nas datas-bases de importantes categorias de trabalhadores brasileiros. O Banco Central (BACEN) vai continuar elevando o juro-básico (SELIC), que, segundo o mercado, vai se situar acima de 8% no final do ano, subindo, em momento lento de recuperação econômica, o custo de financiamento para empresas e famílias. O BACEN viu as expectativas se desencorarem do centro da meta, colocou a SELIC acima da taxa neutra de 3%, que desestimula a atividade econômica e terá que agir, agora como ente independente, ainda com mais vigor para conter a inflação, mas o BACEN não pode tudo. Sua atuação tem limites. Depende do Presidente e do Ministro da Economia quanto ao lado fiscal que agora é o fator   dominante na política macroeconômica. O mercado estima que a inflação cairá nos próximos meses o que depende de fatores que nem sempre estão sob o controle das autoridades econômicas. Todavia, já estima que a inflação de 2022, embora menor do que a atual, se situe acima do teto da meta. A ver!  Até agora subestimamos a inflação. Ela merece respeito até mesmo para poder trazê-la, com um alto custo econômico, para perto do centro da meta.

*Jorge Jatobá. Doutor em Economia e Sócio-Diretor da Ceplan-Consultoria Econômica e Planejamento

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