Retomada econômica difícil em ambiente de instabilidade política e crise social grave

Artigo publicado originalmente Movimento Econômico em 20 de agosto de 2021  por Tania Bacelar*

Tania Bacelar/Foto: cortesia Cofecon

A pandemia surpreendeu o Brasil em momento de crises múltiplas: econômica, social, política, ambiental… A atividade econômica, que mergulhara numa queda forte entre 2015-2016, tentava respirar, mas conseguia alcançar apenas modesto 1% ao ano entre 2017 e 2019, quando veio a necessidade de praticar o afastamento social. O desemprego e a informalização da mão de obra já crescia a olhos vistos. O ambiente político polarizado permanecia, após um impeachment e uma eleição.

O impacto inicial da pandemia foi forte – queda do PIB de 10% no primeiro trimestre de 2020 – atenuado por um conjunto de politicas públicas federais dirigidas a apoiar as famílias (com destaque para o auxilio emergencial), as empresas e os entes públicos subnacionais. E conseguiu: a atividade econômica caiu 4,1% no acumulado anual, com a agropecuária registrando crescimento (2%), enquanto os serviços – os mais afetados negativamente – amargavam queda um pouco superior à média (-4,5%). Na leitura pelo lado da demanda, o consumo das famílias liderou a queda (-5,5%), o que é especialmente grave, pois ele é o principal componente do PIB do país (64%).

Uma segunda onda da pandemia marcou o primeiro semestre de 2021 e a economia, que tentava se recuperar, tem dificuldade para avançar, agora com forte mitigação do apoio governamental e imersa em contexto de intensa desvalorização do real – os 4,15 reais para cada dólar em janeiro de 2020 pulam para 5,16 em julho de 2021, ou 25% de perda de valor. A este panorama se somam vários fatores do lado da oferta, como a política de preços dos combustíveis, para impulsionar a inflação.

Os preços internos disparam: o IPCA, calculado pelo IBGE, em junho deste ano, acumulava alta de 8,35%, em doze meses.  E o Comitê de Política Monetária (Copom) ativa a política de elevação da taxa Selic, ajudando a encarecer o crédito ao consumidor e às empresas, desestimulando o consumo e o investimento, além de elevar o custo da dívida pública. Ao mesmo tempo, o “teto dos gastos” comprime as despesas primárias do governo – justo aquelas que ativam a demanda agregada da economia.

O avanço da inflação pune com mais força, como sempre, as camadas mais pobres da sociedade e agrava o quadro social marcado por forte desemprego e subutilização da força de trabalho. O IPEA estimou, para julho último, a inflação em 12 meses, por faixa de renda, e mostra que para os que se situam na classe de renda mais baixa ela foi de 10,05% enquanto que para a população de mais alta renda foi de 7,11%: uma diferença de 41% entre os dois extremos da pirâmide social. Não só porque os mais pobres gastam toda sua renda no consumo, como porque vários dos bens de sua cesta estão entre os mais pressionados pela inflação (gás de cozinha, alimentos e energia elétrica residencial, por exemplo).

Como se não bastasse, no ambiente político, sob o protagonismo do presidente da República, a tensão se agrava, beirando a crise institucional e inserindo componente de instabilidade ao ambiente econômico, o que dificulta a retomada. O boletim FOCUS, que reflete a opinião do mercado, recua sua estimativa sobre o comportamento do PIB em 2022 (de 2,5% para 2,0%). Vários atores econômicos fazem o mesmo: revisam para baixo suas estimativas do ritmo da retomada.  Esse ambiente conflituoso influi inclusive no processo de vacinação que tenta avançar (veja a briga entre São Paulo e o Governo Federal). Isso, mesmo que todos saibam que a vacinação em massa e rápida é a variável mais estratégica para a retomada.

Até a agenda das reformas está sendo impactada, num ponto que poderia ajudar na retomada: a reforma tributária. Sem investimento suficiente na construção de consensos orientados pela qualidade e consistência das mudanças, tende a prevalecer remendos orientados por pressões localizadas.

Que conjuntura difícil! A retomada econômica é dificultada por ela!

*Tania Bacelar é economista, socióloga, mestre e doutora em Economia pela Universidade de Paris – Panthéon Sorbonne. Foi secretária de Políticas de Desenvolvimento do Ministério da Integração, secretária da Fazenda de Pernambuco e diretora da Sudene da Fundaj.

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