2021 com sinais de discreta recuperação após forte retração em 2020

Artigo escrito por Valdeci Monteiro* e publicado originalmente no Movimento Econômico em 16/10/2021

No ano de 2020, em meio a profunda e global crise da pandemia da Covid-19, a economia brasileira registrou uma retração no Produto Interno Bruto (PIB) de -4,1%. Do ponto de vista territorial, a região Nordeste foi onde o impacto se mostrou mais intenso, apresentando uma queda de -8,6%; seguida no Centro-Oeste, -8,0%; no Sul, -6,4%; no Norte -2,7% e no Sudeste, -1,5%. 

A combinação de vários fatores influenciou este desempenho do Nordeste em 2020, com alguns destaques:

(a) entre os nove estados do Nordeste, cinco apresentaram recuos do PIB de mais de 10% em 2020, destacando-se o estado da Bahia com queda de-13,3% do PIB, cujo peso na economia regional é de 26%;

(b) o desempenho setorial negativo, em especial no setor primário (-12,2%), mas, também importante no setor industrial;

c) o Impacto geral negativo no comércio e nos serviços, duramente atingidos pelos efeitos da pandemia, a exemplo de segmentos como o turismo e bares e restaurantes;

d) piora nas condições gerais de emprego e renda da região. Num ano em que o Brasil registrou recorde de taxa de desemprego (13,5%), o Nordeste teve as maiores taxas, a exemplo da Bahia com 19,8%, Alagoas 18,6% e Sergipe 18,4%.

Para 2021, dados apresentados pelo Banco do Nordeste (BNB) com base em informações do IBGE (Informe Macroeconômico nº30) aponta para alguns indicadores de recuperação do Nordeste, embora ainda sob efeito do Contexto de Pandemia que já apresenta tendência de recuo, possibilitando flexibilizações na retomada de atividades econômicas. No volume de Serviços, todos os estados do Nordeste apresentaram taxas positivas entre janeiro e julho de 2021 em relação a igual período de 2020, tendo Alagoas (+14,1%) e Maranhão (+11,8%) expandido mais que a média do Brasil que foi +10,7%. Considerando o tipo de atividade, ressaltaram-se as fortes altas dos Serviços Prestados às Famílias, em Pernambuco (+32,7%) e Bahia (+29,1%); Serviços de Transportes e auxiliares de Transportes, no Ceará (+22,8%) e Bahia (+15,9%); e Serviços Profissionais, Administrativos e Complementares, no Ceará (+9,4%).

Todos os estados da região também tiveram crescimento nas vendas do varejo ampliado neste período, apenas a Paraíba e Rio Grande do Norte apresentaram taxas um pouco abaixo da taxa verificada para o conjunto do Brasil que foi de +11,4%. Piauí (+28,3%); Pernambuco (+25,7%) e a Bahia (+16,0%) tiveram fortes expansões. Duas atividades se destacaram: Veículos, Motocicletas e peças e Tecidos, Vestuário e Calçados.

Refletindo o desempenho do Comércio e Serviços, o ICMS nordestino apresentou crescimento real de 19,3% de janeiro a agosto de 2021, com realce para a Bahia (21,0%), Ceará (20,2%) e Alagoas (20,0%).  A variação no Brasil neste período foi de 20,8%.

Também se verificou um crescimento superior ao do país no Crédito, considerando agosto de 2021 no acumulado dos últimos 12 meses: 19,1% de expansão regional contra 15,9% do Brasil. Destaques para o Piauí, Maranhão e Alagoas com taxas acima de 21%.

Mas, estas evidências de sinais de retomada da economia do Nordeste em relação a 2020 devem ser tomadas com cautela pois, embora venha apontando para importantes melhoras, vale lembrar que ainda estamos num contexto pandêmico. Por outro lado, os dados da conjuntura econômica nacional apontam tendência de elevação da inflação, das taxas de juros básicos e de câmbio ainda em patamar elevado. E, do ponto de vista, do mercado de trabalho, os indicadores de 2021, não são favoráveis. Segundo dados da PNAD Contínua/IBGE, de janeiro a março, a renda efetiva do trabalho no Nordeste caiu 7,05%, frente a igual período de 2020, enquanto no Brasil o recuo foi de 2,2%. E a taxa de desocupação ainda se mantêm elevada e acima da média brasileira.

Num ambiente de grande incerteza econômica e instabilidade política nacional, o ano de 2021 deve resultar para o Nordeste em indicadores econômicos melhores que os de 2020, mas as condições ainda adversas do mercado de trabalho e esse quadro de grandes incertezas, devem instigar ainda mais a capacidade de superação de desafios dos agentes públicos e privados regionais nos próximos meses.

*Valdeci Monteiro dos Santos é economista, sócio-diretor da Ceplan Consultoria e professor de economia e assessor de planejamento da  Universidade Católica de Pernambuco – Unicap

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