Notícia

O Pós-Eleição: fatos e desafios

Jorge Jatobá (Artigo publicado no JC)
03 de Novembro de 2026

03 - Nov

Em uma virada sem precedente, esta eleição trouxe lições e desafios. Os dez milhões de votos adicionais que Lula obteve não foi resultante apenas do menor absenteísmo e de menos votos brancos e nulos. Muita gente virou o voto. Alguns por rejeição e medo ao bolsonarismo e, muitos outros, pela tomada de consciência sobre qual candidato seria melhor para o Brasil nas atuais circunstâncias. O Governo Lula III cometeu erros e não compartilhou o poder como deveria após a vitória apertada de 2022. A campanha lulista, na eleição de 2026, subestimou o adversário que usou intensamente as redes sociais mais do que as ruas. Felizmente, a situação mudou radicalmente nas três semanas que separaram o primeiro do segundo turno. A mobilização de segmentos importantes da sociedade civil, a utilização intensa das redes sociais e o crescente medo e rejeição de Flávio Bolsonaro, que se tornaram mais explícitos em decorrência de suas entrevistas e participação em debates na TV, foram decisivos para a virada.

As promessas do candidato bolsonarista de manter e expandir os programas sociais do Governo Lula, além de criar outros, eram claramente inconsistentes com as propostas toscas de financiamento, via venda de imóveis da União, securitização da dívida tributária e o uso dos royalties advindos da exploração de petróleo na bacia da foz do Rio Amazonas. O candidato não explicou como iria cortar, via ajuste fiscal, R$ 200 bilhões de déficit primário. Evidenciou-se, assim, um despreparo para lidar com questões que há décadas estão na pauta da economia brasileira. O resultado foi uma derrota histórica com 4,4 milhões de votos a menos do que os obtidos por Lula. 

Está no DNA político-autoritário de Flavio Bolsonaro o fato de não ter reconhecido a derrota, alegando fraude nas eleições. O pai, Jair, caracterizou-se politicamente por lançar dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro e por não reconhecer o resultado das eleições de 2022, evadindo-se para os EUA. A negação, a fuga e uma patética carta endereçada aos brasileiros revelaram um candidato que, como Jair e Trump, nunca aceitaram, quando derrotados, em atitude antidemocrática, os resultados das eleições.

Trump, se perder as eleições de meio de mandato para o partido democrata nesta terça-feira, irá com alta probabilidade contestar os resultados impostos pelo eleitor dos EUA. Faz parte da natureza antidemocrática dessas lideranças não ouvir a voz das urnas quando derrotados. 

Felizmente, o TSE e praticamente todos os partidos políticos, inclusive os que apoiaram Flávio Bolsonaro, confirmaram a lisura do processo eleitoral e aceitaram inequivocamente seus resultados.

O Governo Lula IV terá enormes desafios. Dois, entre outros, se destacam. Governar com um Congresso majoritariamente na oposição e realizar um crível ajuste fiscal para evitar que o país não seja tragado para uma severa crise fiscal cujos remédios e dosagens, geralmente amargos podem conduzir o Brasil a uma recessão como a de 2015 e 2016. O país aguarda as novas propostas de controle dos gastos públicos com seus instrumentos bem definidos e estáveis. O Brasil tem uma tradição de enganar a si mesmo quando se trata da busca do equilíbrio fiscal. A dívida bruta é de R$ 11,1 trilhões, equivalente a 82,9% do PIB, tendo sido agravada com as benesses do atual governo em ano eleitoral. 

Ademais, a reforma tributária terá que ser implantada, a administrativa aprovada e a previdenciária aperfeiçoada.

Para tanto o Governo Lula IV terá que ampliar a sua base política, abrindo-o à participação de outros partidos, além do PT, que, também, precisa rever seus erros, tornar-se mais aderente à sociedade e às transformações políticas, econômicas e sociais que estão em curso no país e no mundo, e renovar as suas lideranças. Este será o último governo de Lula. Não necessariamente o do PT, dependendo dos seus acertos e de sua capacidade de governar de forma ampla e aderente aos renovados anseios da sociedade brasileira. Precisará governar para o povo e com o povo em condições politicamente adversas e de grande polarização nos cenários nacional e internacional. 

Superados os riscos de a família Bolsonaro voltar ao poder, como adverti no meu último artigo, surgem novas ameaças e desafios que vão exigir articulação, comunicação, pacientes negociações e políticas criativas e eficazes do novo Governo Lula para que o país consiga reduzir ainda mais a pobreza e a desigualdade, possa crescer de forma sustentável, além de estabilizar preços e gastos públicos. Os desafios estão postos!
 

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