Notícia

Da energia limpa à inovação

Fonte: Jornal do Commercio
08 de Outubro de 2026

08 - Out

Com energias renováveis, polos tecnológicos e fronteiras agrícolas em expansão, região muda perfi l e mostra potencial para atender demandas mundiais

O Nordeste chega a este 8 de outubro, Dia do Nordestino, ocupando um novo lugar no cenário nacional. Com sol e vento em abundância para gerar energia limpa, um bioma adaptado ao calor e à escassez de água, universidades espalhadas pelo interior e polos de tecnologia que se tornaram referência no país, a região passou a reunir justamente o que uma nova era da economia mundial procura. Com nove estados, o maior número entre as regiões do país, e 57,4 milhões de habitantes, quase 27% da população brasileira, o Nordeste movimenta uma economia de R$ 1,5 trilhão. 

Num momento em que o planeta busca sustentabilidade, descarbonização e novas formas de produzir, pesquisadores que acompanham o desenvolvimento regional avaliam que o Nordeste tem condições de dialogar com essas tendências e transformar o seu potencial em oportunidades. 

A economista Tania Bacelar, sócia-fundadora da Ceplan Consultoria Econômica e Planejamento e uma das maiores referências no tema, e o economista Flávio Ataliba, coordenador do Centro de Estudos para Desenvolvimento do Nordeste do FGV Ibre, estão entre as vozes que defendem essa leitura. 

“Olhe o que era o Nordeste há 30 ou 40 anos e o que é hoje. Mudou muito”, resume Ataliba. Para Tania, as transformações aparecem em várias frentes, do semiárido às cidades médias, da energia à cultura.

SEMIÁRIDO REDEFINIDO

A mudança mais importante, para Tania, acontece no semiárido, que ocupa a maior parte do território nordestino. Durante séculos, a economia dessa área se apoiou no tripé gado, algodão e policultura, dentro do grande latifúndio pecuário, estrutura estudada por Celso Furtado nos anos 1950. 

Ao longo de anos, esse tripé se desmontou. O algodão saiu do arranjo no fi m do século passado, abalado pela concorrência das importações e pela praga do bicudo, e hoje é cultivado em fazendas especializadas, ligadas ao mercado mundial. A pecuária permanece, assim como a grande propriedade, já que não houve reforma agrária. A agricultura de alimentos ganha peso num novo padrão, com foco em alimentos saudáveis e um processo de mecanização em curso.

Com o tripé desmontado, a pergunta passou a ser o que produzir no semiárido. A resposta, para a economista, está num novo olhar sobre a caatinga, cujas plantas resistentes ao calor e à seca abrem espaço para atividades que não eram tradicionais na região. A indústria farmacêutica já busca no bioma matérias-primas para novos medicamentos. 

Outra frente é a produção de bioinsumos, microrganismos usados na agricultura no lugar de defensivos químicos, cada vez mais procurados pelo agronegócio brasileiro. A cannabis, cujo cultivo está concentrado no semiárido nordestino, também aparece entre as novas possibilidades econômicas do território. 

“A tendência do mundo é a temperatura subir e termos que conviver com a escassez de água. A caatinga está sintonizada com o que há de tendência mais relevante no mundo. O semiárido hoje é uma das áreas para as quais o mundo está olhando, porque pode produzir as coisas do século 21”, alerta Tania.

ÁGUA NOVA

A transposição do São Francisco é outra virada. Os geógrafos pernambucanos Manuel Correia de Andrade e Mário Lacerda de Melo já mostravam que o semiárido tem clima seco, mas também tem terras férteis, que eles chamavam de manchas férteis. O problema era a falta de água por perto.

A chegada da água ainda é recente, mas já há resultados. Nas várzeas de Sousa, no Sertão da Paraíba, uma área que não produzia por falta de água hoje cultiva coco, banana, goiaba e mamão, vendidos também para o Sudeste. “Uma coisa é o Nordeste semiárido sem a transposição. Outra coisa é o Nordeste semiárido com a transposição, que possibilita aproveitamentos que não fazíamos antes por falta de acesso à água”, ressalta a economista. 

Tania faz uma ressalva. As obras físicas foram concluídas, mas a parte econômica ainda está em definição, ou seja, quem vai pagar pela água e quanto ela vai custar. 

SECA DIFERENTE

A mudança social mais visível, para a economista, é que o Nordeste passou a ter seca sem drama social. “Acabamos de sair de 7 anos de seca. Houve frentes de emergência? Não. Houve fl agelados na beira da estrada? Não. Que milagre foi esse? As políticas assistenciais”, lembra Tania.

Quem mais sofria com a estiagem era a população rural, em boa parte idosa. Hoje, a proteção social aos idosos e o Bolsa Família garantem uma renda básica que permite atravessar longos períodos de seca. Os planos de emergência, que a Sudene aprovava todos os anos, deixaram de existir.

O programa Um Milhão de Cisternas completou essa transformação. Desde 1999, mais de 810 mil cisternas foram construídas no semiárido pela Articulação Semiárido Brasileiro, em parceria com o governo federal. Cada casa ganhou uma cisterna de placa, construída com a ajuda das próprias famílias, e as mulheres deixaram de caminhar longas distâncias com latas.

As mulheres também assumiram o protagonismo no campo e hoje lideram várias federações ligadas à agricultura na região, uma mudança que Tania acompanhou de perto.

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