Notícia

A Cara do Futebol Global

Jorge Jatobá (Artigo publicado no JC)
15 de Julho de 2026

15 - Jul

A Copa do Mundo está sendo realizada com 48 países de todos os continentes e 1.248 jogadores de diversas cores e etnias (FIFA, 2026). O torneio é uma bilionária festa global, transformando-se numa indústria que mobiliza substantivos recursos materiais, humanos e financeiros. Este ano, quatro novos países se agregaram ao torneio, trazendo surpresas e emoções: Curaçao, Jordânia, Uzbequistão e o extraordinário Cabo Verde que, em demonstração de técnica e de raça, surpreendeu e encantou o mundo. Os jogadores vieram de 449 clubes disseminados em 71 países que se associam em sete ligas da CONMEBOL (América do Sul) a da UEFA (Europa). A Copa terá 104 matches com atletas que jogam, na sua maioria, em clubes de países que não são os seus. Só o Qatar e a Arábia Saudita têm equipe montadas com jogadores de times locais. Outros, como o Uruguai, tem sua seleção nacional formada por jogadores que disputam campeonatos em ligas estrangeiras. A maioria dos jogadores brasileiros (19 de 26) jogam em clubes de fora do país.

A ordem internacional construídas pós- 1945, que o Governo Trump está conscientemente desmontando, se manifesta nas competições desta Copa: a diversidade racial, dentro e entre as equipes; a pluralidade de países num multilateralismo que não se vê na geopolítica internacional; os confrontos difíceis, com resultados eventualmente surpreendentes, entre seleções nacionais de diferentes estaturas técnicas e tradição e a confraternização dentro e fora dos estádios. A arte dos jogadores ao conduzir uma bola e de transformar o momento em que ela entra na rede em incontida alegria e tristeza ao mesmo tempo, dentro e fora do campo, são manifestações de forte emoção que poucos esportes coletivos e populares são capazes de apresentar.

O fato que mais demonstra o caráter globalizante do futebol moderno é a heterogeneidade racial e étnica. Times de países europeus importantes como França, Alemanha, Espanha, Portugal, Suécia e Noruega, entre outros, têm jogadores cujos nomes e sobrenomes, raças e fisionomias evidenciam que os significativos fluxos migratórios em direção à Europa nas últimas décadas deixaram sua forte marca no futebol da região. Este fenômeno ocorreu também, embora com menos intensidade, em outros continentes. A direita europeia que sempre combateu a imigração foi surpreendida com este bom resultado. O Futebol europeu cresceu em qualidade com os imigrantes.

O time francês é exemplar neste sentido. A França de 2026 é muito diferente do ponto de vista étnico-racial da França do legendário Just Fontaine, de origem marroquina, que atuou na Copa de 1958 ou de Zinédine Zidane, de ascendência argelina que atuou nas copas de 1998, 2002 e 2006. Mbappé é de outra geração cujos pais são de Camarões e da Argélia e que joga numa equipe com muitos jogadores de ascendências semelhantes. Fontaine e Zidane eram praticamente solos na equipe francesa de suas épocas. Mbappé pertence a um grupo majoritário da seleção francesa Atualmente, as seleções nacionais têm jogadores descendentes de migrantes de uma ou duas gerações atrás, o que torna estas esquadras representativas de um mundo cada vez mais globalizado e inclusivo.

Nascido ao final da Segunda Guerra Mundial, acompanho as Copas do Mundo desde 1954. Na derrota do Brasil para o Uruguai no Maracanã, em 1950, tinha apenas 5 anos sem consciência da dimensão daquele fato para a história do futebol brasileiro. Desde 1954 até meados dos anos oitenta, as seleções dos países eram formadas, basicamente, por jogadores nacionais que pertenciam aos clubes locais, sendo, relativamente poucos os que que tinham ascendência estrangeira recente. Desde a década de noventa do século passado até agora, a composição-étnico-racial dos jogadores e técnicos das seleções nacionais, sobretudo na Europa e Américas foi mudando gradualmente.

O futebol moderno é um esporte globalizado com atletas de vários recantos do mundo que jogam juntos defendendo seus clubes e países. As migrações em um planeta cada vez mais integrado contribuíram para este fenômeno que deve ser celebrado como uma vitória civilizatória da humanidade.

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