Selic em miúdos: Reflexos no dia a dia da população Brasileira

*Valéria Saturnino

Valéria Saturnino

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu pelo aumento da Taxa Selic de 5,25% ao ano para 6,25% ao ano na última quarta-feira (22/09), sendo o quinto aumento consecutivo em 2021, bem como o maior aumento de uma única vez na taxa desde 2003. A Selic definida é o maior valor desde agosto/2019, quando, na época, estava alcançando uma marca histórica de 6% ao ano.

Para o Brasil, que alcançou sua taxa mínima histórica de 2% em agosto de 2020 – a qual foi mantida até março de 2021, quando voltou a subir – ter sua taxa básica de juros subindo é claramente associado ao controle da inflação, que acumula 9,68% nos últimos doze meses, medido pelo IPCA (índice de inflação oficial do país). Mas afinal, o que é a Taxa Selic e como ela afeta a vida da população em geral?

O nome Selic vem de Sistema Especial de Liquidação e Custódia, sendo este sistema parte essencial da infraestrutura do mercado financeiro, administrado pelo Banco Central. A Taxa Selic refere-se à taxa de juros apurada nas operações de empréstimo de um dia entre as instituições financeiras que usam os títulos públicos como garantia. O Copom define uma meta para a Selic e então o Banco Central opera no mercado de títulos públicos para que a Taxa Selic efetiva esteja alinhada com a meta definida.

Um dos objetivos do Copom em definir uma meta para a Selic é que esta é o principal instrumento de política monetária para controle da inflação. E por qual motivo a Taxa Selic pode ser utilizada para controlar a inflação? Porque ela influencia todas as taxas de juros do país, tanto as de empréstimos e financiamentos como as de aplicações financeiras.

Os bancos servem como intermediários entre agentes superavitários (aqueles que gastam menos do que ganham e, portanto, conseguem investir) e os agentes deficitários (os que precisam de empréstimos e financiamentos). Portanto, captam dinheiro com os superavitários, através de títulos de investimentos, e emprestam aos agentes deficitários a uma taxa de juros maior que a rentabilidade dos títulos (o acréscimo conhecido como spread bancário), tirando daí o seu lucro. Se a Taxa Selic sobe, o banco é obrigado a aumentar a rentabilidade dos títulos de investimentos e consequentemente a aumentar a taxa de juros dos empréstimos. Por outro lado, uma queda na Selic faz todas as taxas caírem.

As mudanças na Taxa Selic podem ser avaliadas sob a ótica dos investimentos e dos empréstimos. Na primeira visão, os aumentos sucessivos trazem maior rentabilidade dos investimentos em renda fixa, como títulos públicos federais, poupança, Certificados de Depósito Bancários (CDBs) e Letras de Crédito (LCA e LCI). A poupança está rendendo agora 4,38% ao ano (de acordo com a nova regra, de 70% da Selic + TR, zerada no momento). A LCA/LCI pode chegar a um pouco mais de 5,50% ao ano líquido, a depender do valor investido e do tempo do investimento. Em todo caso, seja ele qual for, investir em renda fixa no momento traz um rendimento real negativo, pois todos eles perdem para a inflação (próxima de 10% ao ano).

Para tentar contornar a situação e ter ganhos acima da inflação, até mesmo para os investidores mais conservadores, a saída é investir no mercado de renda variável (Bolsa de Valores e Opções), ou no mínimo em fundos de investimentos multimercados (mescla de renda fixa e variável).

Vale salientar que ter rendimentos reais (acima da inflação) não é um desafio só no Brasil. De acordo com site Global Rates[1], a inflação está maior do que a taxa básica de juros nos mais diversos países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a inflação dos últimos doze meses em agosto de 2021 foi medida em 5,25% ao ano, ante uma taxa básica de juros de 0,25% ao ano. Na Rússia, ambos os indicadores estão bem próximos (6,68% de inflação e 6,75% de taxa básica de juros no mesmo período).

Quando a taxa de juros básica cai, além dos investimentos em renda fixa terem menor rentabilidade, tomar dinheiro emprestado fica mais barato (com juros cobrados menores), estimulando o endividamento e o consumo e pressionando a inflação. No sentido inverso – como está acontecendo no Brasil – o aumento da Taxa Selic torna os juros cobrados em cartões de créditos e outras operações de empréstimos e financiamentos mais caros, desestimulando o consumo e, consequentemente, favorecendo a queda da inflação.

Analisando sob a ótica do endividamento, o aumento da Taxa Selic traz mais dificuldades para as pessoas endividadas, as quais constantemente precisam recorrer a empréstimos, parcelamentos em cartões de créditos, cheque especial, dentre outras modalidades. E venhamos e convenhamos, sabemos que é a situação da maioria da população brasileira. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da Confederação Nacional do Comércio (CNC) demonstrou que 72,9% das famílias brasileiras estão endividadas.

Enquanto isso, o Relatório sobre Riqueza Global do Banco Credit Suisse, divulgado em 2021 com dados de 2020, revela que 49,6% da riqueza do Brasil estava concentrada em 1% da população mais rica. O Brasil é líder em desigualdade no mundo entre as grandes economias, medido pelo coeficiente de Gini, o qual aumentou de 88,2 para 89 de 2019 para 2020. O menor índice de Gini alcançado pelo Brasil foi em 2010: 82,2. Vale salientar que quanto maior este indicador, maior é a desigualdade de renda.

Temos um Brasil com uma população em sua maioria pobre, endividada, e que agora sofre os reflexos da pandemia: desemprego, inflação, endividamento mais caro para conter a inflação. Não é só reclamar que os investimentos em renda fixa estão ruins: quem está do lado investidor não está sofrendo nada, diante do que passa o suado trabalhador brasileiro.

[1] Site: https://www.global-rates.com/

*Valéria Saturnino é Doutora em Finanças, professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Consultora Associada da CEPLAN Consultoria Econômica e Planejamento

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