O Nordeste na Equação Energética

Em recente relatório divulgado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a Região Nordeste aparece com destaque na geração de energia eólica e solar no Brasil. Bahia, Piauí e Ceará aparecem entre os cinco maiores nas duas fontes mencionadas e o Rio Grande do Norte se destaca entre os top five, quando se observa a geração proveniente dos ventos. O Estado de Pernambuco deverá em breve entrar nesse seleto grupo a partir da conclusão e operação de grandes usinas solares como, por exemplo, os projetos localizados no município de São José do Belmonte, que segundo o Ministério de Minas e Energia, deverá ser o maior complexo da América Latina em geração de energia solar.

Esse cenário não é novidade, com sol e ventos constantes praticamente o ano todo, as previsões já indicavam que a região se consolidaria na produção de energia em fontes renováveis. O que chama atenção são as variáveis recentemente inseridas na equação energética.

Inicialmente destaca-se a grave crise hídrica no Brasil que afeta de forma significativa a produção hidroelétrica, maior fonte da matriz energética do país. Essa redução de oferta se acentua no momento em que a economia apresenta sinais de retomada, após fase mais aguda da pandemia. Nesse sentido, o aquecimento na atividade econômica passará invariavelmente pela rápida ampliação na oferta de energia de forma que o crescimento não seja comprometido.

Pelo lado positivo, as políticas e ações relacionada à agenda ESG[1] tem levado empresas, fundos de investimentos e instituições financeiras a estabelecerem critérios socioambientais e de governança para os projetos e atividades por eles conduzidos ou patrocinados. Esse movimento vem impactando fortemente a demanda dos grupos empresariais, principalmente de grande porte, por fontes de energias renováveis inseridas em suas políticas de responsabilidades socioambientais.

É nesse contexto que se observa um conjunto de oportunidades possíveis de se concretizar a depender das estratégias associadas à capacidade de geração solar e eólica do Nordeste. Como é de conhecimento, a maior parte das usinas ou fazendas de energia se encontra no semiárido nordestino, ou seja, a região “problema” pode ser parte importante de uma solução. Contudo, ficam as perguntas: como enraizar essa riqueza energética localmente? Existem formas de adensar esses vultosos investimentos na região?

Especialistas destacam que já há uma distribuição de riqueza local através dos royalties pagos pelas energéticas aos proprietários de terrenos, onde se localiza o investimento. Entretanto, esses recursos podem ser ampliados por políticas que estimulem a aproximação do setor produtivo local, das universidades e institutos de pesquisa à cadeia produtiva que envolve geração solar e eólica.

Há um enorme potencial de geração de renda e emprego de qualidade a partir do fornecimento de bens e serviços para as fazendas energéticas instaladas ou em implantação. O Nordeste tem a oportunidade de entrar nesta equação, não apenas como exportador de energia limpa, mas também participando no desenvolvimento do setor de forma inclusiva, inovadora e empreendedora.

*Paulo Guimarães é economista, doutorando pela Universidade de Lisboa e Sócio Diretor da Ceplan Consultoria

[1] Sigla em inglês para Environmental, Social and Governance, utilizada para medir práticas ambientais, sociais e de governança de uma empresa ou projeto e que tem relação importante como critérios para decisão de investimentos.

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