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Em entrevista ao DP Empresas, Tania Bacelar diz que 2019 é um ano de meia-volta na retomada econômica.

No último dia 08 de junho de 2019 a Economista e Sócia da Ceplan Tania Bacelar deu uma entrevista ao Diário de Pernambuco Empresas sobre o Brasil e o Nordeste, tendo esperança em decisões políticas que possam colocar o país de volta no rumo do recomeço após uma crise que perdura há anos.

Acesse a entrevista completa no site do Diário de Pernambuco clicando aqui ou leia abaixo.

Vivemos a mudança no cenário político com o início do governo do presidente Jair Bolsonaro. Em quase seis meses da posse, qual é a sua análise da economia brasileira?
A trajetória de modesta retomada que dominou 2017 e 2018 reverteu e os dados da economia nestes meses iniciais de 2019 não foram nada bons. Sinalizam para um crescimento pífio neste ano. O mercado de trabalho continua muito adverso. As pesquisas sobre expectativas de empresários e de consumidores mostram que elas pioraram nos meses recentes. O ambiente externo não ajuda e a guerra comercial EUA x China nos afeta negativamente pois são nossos importantes parceiros comerciais, além da crise Argentina que também puxa para baixo nossas exportações. O governo faz uma aposta quase única na Reforma da Previdência, e ela, mesmo aprovada com modificações – o cenário mais provável, não terá impacto na dinamização da atividade econômica no curto prazo. Por sua vez, os cortes e contingenciamentos ajudam a travar o consumo do governo e impactam negativamente a demanda agregada. Seria importante tomar outras iniciativas…

As expectativas de crescimento do PIB em 2019 foram desfeitas e tivemos um desempenho negativo no primeiro trimestre, levando a previsões de que estamos com a década perdida. Ainda é possível reverter esta possibilidade?
Como disse antes, houve uma reversão de expectativas e se o ritmo recente se prolonga, a economia nacional só voltará aos patamares pré-crise lá pelo ano de 2023, dizem as projeções disponíveis. Mas ainda é possível reverter esse cenário, desde que iniciativas sejam implementadas na busca de uma retomada mais rápida.

A aprovação da reforma tributária seria mais importante para a economia do que a da Previdência?
A Reforma Tributária, venho defendendo há tempos, é fundamental para abrir novos horizontes no país, pois nosso sistema tributário é velho e ruim. Cobra mais de quem ganha menos, é socialmente injusto, e onera demais a atividade produtiva além de embutir uma complexidade onerosa para as empresas. A carga tributária bruta é próxima à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mas a carga sobre o consumo é um ponto fora da curva nas comparações internacionais. No Brasil a carga é quase 50% do total da receita tributária quando na OCDE a média é próxima a 32%. Já os impostos sobre a renda e sobre o patrimônio pesam apenas 25,4% no Brasil e quase 40% na OCDE.  Portanto, não basta simplificar. É preciso mexer na composição, desonerando quem ganha menos, e consome a grande parte do que ganha, e quem produz ou comercializa. Nela, o governo está a reboque do Congresso, dada a aposta única na mudança da Previdência.

Além das reformas, o que é urgente para atrairmos os investidores internacionais que apresentaram interesse em voltar ao mercado brasileiro após a eleição de Bolsonaro?
O Brasil precisa se reposicionar no contexto mundial. Construir um novo projeto de desenvolvimento, traçar novas estratégias…. Se reinventar. A economia mundial passa por mudanças profundas e rápidas na transição para a sociedade do conhecimento.  Aqui, estamos presos às heranças do século XX e, mais recentemente, mergulhados no curto prazo – e mais recentemente ainda fixados num debate ideologizado – sem capacidade de construir novas bases para o futuro, de vislumbrar novas fronteiras para investimentos, tímidos na definição de novos modelos de financiamento do desenvolvimento. Os investidores externos conhecem o potencial do Brasil e o fluxo de Investimento Produtivo testemunha isso, mas o país é que tem que definir suas prioridades, seu rumo.

Do ponto de vista do Nordeste, o lançamento do Plano de Desenvolvimento Regional pode significar um retorno do planejamento regional?
Diria que é mais uma tentativa. Como se o Nordeste sinalizasse para uma nova agenda para os próximos doze anos. Num país onde o curto prazo domina, não deixa de ser uma certa ousadia. Aliás, ao invés de continuar a se lamentar por ter perdido o bonde da industrialização brasileira do século passado, a proposta do Plano de Desenvolvimento Regional do Nordeste (PDRNE) tenta dialogar com tendências do século XXI identificando as potencialidades do Nordeste para dialogar com elas, presentes na produção de energias limpas e renováveis – cujo enderço nítido é esta região; a economia criativa – que dialoga com a rica base cultural nordestina;  a produção de fármacos e com mudanças que ocorreram recentemente como uma maior interiorização e maior peso das cidades médias. Escolheu também priorizar investimentos em inovação (Eixo 1) e enfrentar o desafio de apostar com força no desenvolvimento das capacidades humanas (Eixo 2) sem esquecer um de seus “alcanhares de Aquiles”, sua base hídrica (Eixo 5). Prioriza, acertadamente, investimentos em infraestrutura de telecomunicações – posto que a circulação de informação é central no atual contexto.  Propõe também a construção de novos modelos de financiamento e mudanças no padrão de governança para o momento de implementação e monitoramento do plano.

Outras regiões terão planos regionais que possam complementar o do Nordeste, valorizando as vocações e infraestrutura de cada uma das regiões?
Sim, o Ministério do Desenvolvimento Regional e Urbano está coordenando iniciativas semelhantes no Norte e Centro Oeste. Sempre defendi que a diversidade regional brasileira é um dos principais ativos do país e um projeto de desenvolvimento nacional deveria valorizar este potencial. Mesmo o Nordeste tem nas suas sub-regiões potenciais distintos: na base ambiental, humana, econômica e cultural. Planos nacionais precisam dialogar com planos regionais num país continental e diverso como o nosso.

Planos e políticas de apoio à inovação estão direcionados a todos os setores da nossa economia ou focam apenas as iniciativas associadas às tecnologias de informação e comunicação (TIC)?
As novas tecnologias de informação, típicas da era digital, são foco importante hoje e o Nordeste tem feito avanços nelas, que têm potencial para atingir numerosos setores e transformá-los. Mas há outras inovações a promover, pois o conhecimento tem avançado em muitas outras frentes, como na genética, na biologia, na nanotecnologia… E há inovações que podem ser estimuladas e que têm por base conhecimentos, não necessariamente de ponta, mas que aplicados à atividades tradicionais elevam, significativamente, a sua produtividade  – são as inovações inclusivas ou frugais, como trata o PDRNE. A política de promoção da inovação, aliás, foi colocada no coração da proposta da Sudene e merece um debate amplo.

Como a senhora espera ver o Brasil daqui a dez anos?
Dado o ambiente recente e o atual fica difícil ousar uma resposta. Mas o Brasil é um país com muitas potencialidades e foi capaz de grandes mudanças quando se consegue sinergia numa certa direção, especialmente no plano econômico. O que esperaria era viver num país menos injusto socialmente. Menos violento.

Fonte: Diário de Pernambuco Empresas em 08 de junho de 2019.

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