Desigualdade no impacto da crise sanitária – lições da Alemanha, EUA e Reino Unido

Por Juliana Guimarães – Artigo publicado originalmente no Movimento Econômico em 17 de julho de 2021

Em recente artigo acadêmico¹, Christopher Rauh, economista da universidade de Cambridge, com co-autores, investigaram o impacto da crise gerada pela Covid-19 no emprego, renda e horas trabalhadas dos indivíduos no Reino Unido, nos Estados Unidos (EUA) e na Alemanha. Os autores usaram pesquisa direta, quase em tempo real, para identificar importantes diferenças no impacto sofrido pelos trabalhadores desses países. As diferenças foram observadas não só entre os países, mas também dentro dos países, dependendo das características dos indivíduos (educação, gênero e idade), ocupações e também arranjos trabalhistas.

A pesquisa conduzida em março e abril de 2020 mostra que nesse período, 20% dos trabalhadores nos EUA haviam perdido seus postos de trabalho; no Reino Unido esse percentual era de 17% e na Alemanha apenas 5% dos trabalhadores perderam seus postos de trabalho. A heterogeneidade no impacto sobre os postos de trabalho mostra um diferencial interessante entre esses países e instiga os pesquisadores a uma investigação mais profunda sobre as possíveis causas dessas diferenças.

Uma das possíveis causas tem origem nas diferenças institucionais nas leis que regulam o mercado de trabalho. Enquanto nos EUA e no Reino Unido o esquema de licença com vencimento (furloughing), introduzida nesses países de forma emergencial na pandemia, foi usado em larga escala (25% e 36% dos trabalhadores nos EUA e no Reino Unido indicaram estar usando o esquema, respectivamente), na Alemanha o governo usou o esquema já estabelecido de short-time-work (STW), no qual as empresas reduzem as horas trabalhadas dos indivíduos ao invés de demiti-los – o chamado Kurzarbeit. Através desse esquema 34% dos trabalhadores na Alemanha passaram a trabalhar menos horas, beneficiando-se assim do programa, ficando ainda ativos, mesmo que parcialmente.

Um outro fato importante mostrado pelos autores é de como a pandemia afetou alguns trabalhadores mais do que outros. Trabalhadores que podem exercer a maior parte das suas tarefas laborais remotamente, têm uma probabilidade significativamente menor de serem demitidos. Esse fator tem um poder explicativo maior do que o tipo de indústria ou tipo de ocupação na qual o trabalhador está inserido em explicar a manutenção ou não do emprego. Trabalhadores com contratos permanentes de trabalho também apresentam uma probabilidade menor de desligamento do emprego, comparados aos trabalhadores com contratos temporários.

Em relação às características demográficas, nos EUA e no Reino Unido, mulheres e indivíduos sem grau universitário perderam com maior probabilidade seus empregos, mesmo controlando para as diferentes ocupações e o percentual de tarefas possíveis de serem exercidas remotamente. Esta é talvez a maior diferença constatada na literatura entre a recessão atual causada pela pandemia da Covid-19 e outras crises econômicas advindas, por exemplo, de crises financeiras. Os autores notam também que os impactos no trabalho das mulheres e dos indivíduos sem grau universitário na Alemanha, não estão alinhados com os mesmos impactos observados nos Estados Unidos e no Reino Unido – mulheres e indivíduos sem grau universitário na Alemanha tiveram menores perdas de emprego.

A maior demanda por afazeres domésticos e também na educação dos filhos (home schooling) são os principais fatores apontados pelas mulheres para explicar a saída dos seus postos de trabalho nesta pandemia. Em entrevista ao jornal inglês, The Guardian, Nicole Manson CEO do Institute for Women’s Policy Research (IWPR) nos EUA, descreve o maior impacto desta recessão sobre as mulheres como “Shecession”. Mais de 11 milhões de mulheres americanas perderam seus trabalhos e outros 2.65 milhões deixaram o mercado de trabalho desde Fevereiro de 2020. O impacto no longo prazo desta recessão sobre as mulheres e o reingresso feminino na força de trabalho é atualmente assunto de importante discussão globalmente, e será assunto para um artigo futuro no Movimento Econômico.

Juliana Guimarães é PHD em Economia, professora do Homerton College da Universidade de Cambridge e sócia da Ceplan

NOTA: 1 Inequality in the Impact of the Coronavirus Shock: Evidence from Real Time Surveys, Abi Adams-Prassl, Teodora Boneva, Marta Golin, and Christopher Rauh, Journal of Public Economics, (2020), vol. 189.

Deixe um comentário