Juliana Guimarães – Shecession: uma recessão cor-de-rosa choque

Artigo publicado originalmente no Movimento Econômico em 04 de setembro de 2021

Em sua grande maioria, as recessões mais recentes afetaram de forma desproporcional a mão-de-obra masculina, levando assim o codinome de mancession, fazendo alusão ao caráter masculino do choque no mercado de trabalho e na economia.  A crise global causada pela pandemia da Covid-19, entretanto, está pela razão diametralmente oposta, sendo chamada de shecession. A pandemia tem afetado desproporcionalmente as mulheres as quais vêm sofrendo um declínio maior em sua participação no mercado de trabalho, de forma intensiva e extensiva, ou seja, na sua participação e no número de horas trabalhadas.

Em artigo recente, Matthias Doepke, Professor da Northwestern University em Chicago, junto com coautores, analisou o impacto da pandemia no mercado de trabalho feminino em diversos países (1). O artigo usa micro dados dos Estados Unidos, Canada, Alemanha, Holanda, Espanha e Reino-Unido, e confirma os achados da literatura na área. A conclusão dos autores extrapola esses achados com análises detalhadas sobre as especificidades do arcabouço institucional de cada país e as consequências econômicas de tal fenômeno.  A pandemia sem dúvida, gerou um dos mais severos choques econômicos desde a Grande Depressão.  Na Grande Depressão assim como as recessões pré-pandemia, entretanto, os setores econômicos mais afetados foram o setor de construção civil e a indústria, estes em grande parte compostos por mão-de-obra masculina. Na crise econômica advinda da Covid-19, os setores mais afetados foram o setor hospitaleiro e de turismo, que empregam proporcionalmente mais mulheres.  Soma-se a isso a necessidade de fechamento das escolas, o que impôs às famílias uma maior dedicação de horas e esforço nos cuidados com as crianças. Se pensarmos que as normas sociais na maioria dos países assumem que as mães são em grande parte as provedoras naturais dos cuidados com os filhos e a casa, não fica difícil concluir que o fechamento das escolas passa a ser um fator importante na queda da participação feminina no mercado de trabalho.

Os resultados do artigo mostram diferenças importantes entre grupos de mulheres e entre países. O fechamento das escolas por exemplo, passa a ser fator determinante para a queda de participação da mulher com filhos em idade escolar, entre 5 e 16 anos. Famílias com filhos pequenos, ou fora da idade escolar não apresentam o mesmo choque na participação feminina do mercado de trabalho.  Outro fator importante é a composição do domicílio. Mães solteiras sofrem em todos os países analisados, choques negativos mais severos na participação no mercado de trabalho e nas horas trabalhadas. Os resultados para os Estados Unidos são mais acentuados; ainda controlando para o setor de trabalho e para a existência de filhos em idade escolar, o impacto negativo na participação da mulher é muito maior do que para o homem. A Alemanha e o Reino Unido apresentam choques menores, possivelmente por conta do benefício emergencial colocado em prática nesses países. Os autores mostram que no Reino Unido as mulheres deram entrada no auxílio emergencial com maior frequência que os homens. Como era de se esperar, os choques para o mercado de trabalho feminino são mais severos para a população menos educada, sendo este mais forte para as mulheres de menor nível educacional no Estados Unidos e Canadá. No Reino Unido e na Espanha, o gap de participação entre mulheres e homens, se dá em grande parte entre pais com filhos em idade escolar e grau universitário, mas não entre a população menos educada, possivelmente pelo fato das famílias de menor nível educacional se valeram proporcionalmente mais dos auxílios do governo. Os autores não encontram distinção significativa entre mulheres de raças e etnias diferentes no que diz respeito a queda de participação no mercado de trabalho na maioria dos países analisados. Apenas na Alemanha e Canadá, as perdas laborais para as mulheres são maiores para aquelas que possuem status de imigrante.

Outro fator importante é o papel da flexibilização do trabalho na pandemia. Trabalhadores que puderam continuar a trabalhar remotamente tiveram uma menor perda de renda, e conseguiram em sua grande maioria conciliar trabalho e afazeres domésticos em vista do fechamento das escolas.  À primeira vista isso parece estar a favor das mulheres, permitindo a flexibilização vislumbrada como forma de permitir um decréscimo do chamado motherhood penalty (penalização da maternidade) no mercado de trabalho. Isso seria verdade se a distribuição de afazeres domésticos se desse de forma equilibrada nos lares, o que não é a realidade da maioria das famílias. A literatura mostra que apesar da possível flexibilização advinda do trabalho remoto para alguns indivíduos, as mulheres sofreram uma maior perda de produtividade. Isso é comprovado em pesquisas domiciliares que perguntam acerca do número de vezes que cada indivíduo sofre interrupção no espaço de uma hora de trabalho, tendo as mulheres comprovadamente maior número de interrupções, em sua grande parte para dar atenção aos filhos. Em artigo recente, Noriko Amano-Patino e coautores, pesquisadoras e professoras da Universidade de Cambridge, mostram essa queda de produtividade no ambiente acadêmico, onde mulheres economistas sofreram na pandemia uma queda considerável no número de publicações comparadas aos homens (2).

Os impactos devastadores para as mulheres de diversos países vão além do bem-estar individual, podendo levar a repercussões duradouras.  A oferta de trabalho feminina é comprovadamente mais elástica do que a do homem, o que significa que para cada mudança salarial, a retração ou ampliação de horas trabalhadas é maior para elas. Assim, a perspectiva de ganhos mais baixos por parte das mulheres poderá gerar uma diminuição persistente da participação delas no mercado de trabalho, ampliando a desigualdade de gênero. Um outro aspecto importante é o fato de que a presença de duas rendas em um domicílio serve como seguro para choques adversos como a perda do trabalho ou um eventual problema de saúde de um dos cônjuges. Nas recessões anteriores, as mulheres serviam de seguro contra estes choques adversos na renda familiar, o que não ocorre com a shecession, tendo a perda desse emprego e renda, um impacto direto no consumo agregado. 

Por fim, a recessão econômica fruto da pandemia tem gênero. Ela é mulher, tem filhos, trabalha em sua grande maioria no setor hospitaleiro, e apesar de às vezes conseguir trabalhar remotamente, tem que se dividir entre uma tela de computador, afazeres domésticos e tarefas escolares.

*Juliana Guimarães é economista, professora do Homerton College-Universidade de Cambridge, e sócia da Ceplan Consultoria


[1] Alon, Titan, Sena Coskun, Matthias Doepke, David Koll and Michele Tertilt “From Mancession to Shecession: Women’s Employment in Regular Pandemic Recessions” IZA DP No 14223

[2] Amano-Patino, Noriko, Elisa Faraglia, Chryssi Giannitsarou, Zeina Hasna (2020) “The Unequal Effects of Covid-19 on Economists’ Research Productivity” Cambridge-INET Working Paper 2020/22

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