Artigo publicado originalmente no Movimento Econômico em 17 de Abril de 2022 e escrito por Jorge Jatobá*

A inflação de março de 2022 (1,62%) foi a maior desde março de 1994 que antecedeu, em três meses, o lançamento do Plano Real, a mais bem sucedida política de estabilização de preços da história brasileira. Isso evidencia o impacto sobre os preços decorrentes da guerra entre a Rússia e a Ucrânia que já vinham sendo pressionados pela ruptura das cadeias de suprimento globais causadas pela pandemia, pela crise hídrica do ano passado, pelo aumento dos preços dos combustíveis e pela elevação dos preços das commodities.

Para o economista Jorge Jatobá, o Banco Central continuará a elevar os juros- Foto: Arthur de Souza/ME

A inflação é hoje, no entanto, um fenômeno global. Nos Estados Unidos, até março, ela foi de 8,5%, a maior desde 1981. No caso brasileiro, todavia ela tem impactos diferenciados do resto do mundo devido às características da nossa economia, muito exposta às flutuações de preços internacionais, à profunda desigualdade socioeconômica, a um mercado de trabalho segmentado e de baixo rendimento médio, e devido às incertezas fiscais presentes em ano eleitoral intensamente polarizado.

Isso nos leva a questionar se seremos bem sucedidos em controlar ainda em 2022 a inflação que, no acumulado de 12 meses, até março, já se encontra em 10,84%. No inicio de abril as expectativas inflacionárias já se situavam em 6,8%, bem acima do teto superior da meta (5,0%) definido para este ano.

Neste contexto, o Banco Central deverá continuar subindo a taxa de juros básica da economia para conter uma inflação que não é de demanda, mas derivada de choque de preços pelo lado da oferta. Tem que fazer isso na tentativa de reverter expectativas  e de ancorar a taxa de inflação no entorno do centro da meta ao final de 2023. Essa política, porém, é contracionista porque eleva o custo do crédito para consumidores e empresários.

Inflação alta retira poder de compra de todos, especialmente dos mais pobres que não têm como se defender das elevações de preços. A inflação acumulada desde 2020 foi bem maior para os grupos situados na base da pirâmide de renda brasileira. A variação nos preços da cesta básica tem sido dois pontos percentuais acima da média de subida dos preços médios medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Baixo crescimento econômico, inflação em alta e queda no rendimento médio do trabalho em um mercado onde a recuperação do emprego se deu mais pela ocupação informal do que a formal, agravam a situação social. Não é surpresa a emergência da insegurança alimentar no país e a deterioração na confiança do consumidor medida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Uma menor pressão inflacionária, todavia, está vindo pela valorização do real ante o dólar, uma vez que o repasse para produtos importados de um câmbio mais barato pode reduzir os preços desses produtos. Contudo, não há segurança de que dólar vai continuar caindo. Uma mais agressiva política monetária pelo Banco Central (FED) dos Estados Unidos que, além de diminuir a liquidez na economia irá acelerar a subida dos juros básicos, deverá reduzir o diferencial de juros entre o Brasil e os EUA, tornando menos atrativa a entrada de capital especulativo de curto prazo no Brasil, um dos fatores que explicam a desvalorização do dólar no país.  

Cabe destacar também que incertezas fiscais que persistem e se agravam em ano eleitoral também podem contribuir para tornar o dólar mais caro. Calcula-se que se elas não existissem o câmbio estaria  situado hoje em torno de R$4,00.

Finalmente, a soma da inflação com baixo crescimento que se manifesta em altas taxas de desemprego e informalidade no mercado de trabalho costuma cobrar um alto preço de presidentes que almejam ser reeleitos. A história das democracias está plena de exemplos. Estagflação dificulta projetos de reeleição.  

Jorge Jatobá é Doutor em Economia, sócio da Ceplan Consultoria e presidente do LIDE Economia de Pernambuco.

Deixe um comentário