Artigo publicado originalmente em 9 de abril de 2022 no Movimento Econômico e escrito por Paulo Guimarães*

Neste artigo, o economista observa que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia pode ser uma oportunidade para o Brasil exportar energia limpa que será gerada por fábricas de hidrogênio verde, já anunciadas

A pandemia da Covid-19 tem sido um dos maiores desafios sanitários já registrados, e que acarretou uma enorme mobilização de recursos e especialistas para o enfrentamento e a busca de soluções. O homem usou o conhecimento, a racionalidade e a ciência para “vencer” o inimigo invisível, batalha ainda em curso.

Paulo Guimarães, economista – FOTO: Divulgação Ceplan

Contraditoriamente, o início de 2022 foi marcado pela irracionalidade e ausência de diálogo, com o homem (ou um homem) iniciando um conflito bélico ao ordenar a invasão de uma nação soberana e trazer à tona uma das piores invenções da humanidade.

“A guerra é a escolha daqueles que não vão lutar” (Bono Vox – Vocalista e líder da banda U2).

Em decorrência, os cenários e projeções desenhados no final de 2021 que consideravam a presença das vacinas, novos medicamentos e, portanto, o arrefecimento da gravidade da Covid-19, tomaram outros contornos, alimentados por novas incertezas.

A geopolítica se apresenta com nova dinâmica e direções. Independente do tempo do conflito, ou seja, se a guerra na Ucrânia termina em semanas ou meses, há consenso entre os especialistas sobre o surgimento de uma nova ordem mundial.

Ucrânia enfrenta guerra por sua soberania – FOTO: Pixabay

Nesse ambiente conturbado e de múltiplos cenários, alguns fatos começam a se consolidar, como é o caso das relações do ocidente com a Rússia e, dentro desse contexto, as fontes e infraestruturas energéticas. O impacto inicial é notadamente na Europa, devido à dependência das fontes energéticas russas (gás e petróleo), com destaque para os recentes investimentos em gasodutos que alimentam boa parte do Velho Mundo. Contudo, ao se tratar de grandes economias, as repercussões podem
ultrapassar as fronteiras europeias.

A Europa já se reorganiza e toma medidas para diversificar as fontes e fornecedores energéticos, acelerando investimentos em terminais de importação de gás e gasodutos. Essa estratégia passa notadamente pela península ibérica através dos portos de Portugal e Espanha. No caso português, os especialistas e o próprio governo já destacam o porto de Sines como a melhor alternativa para alimentação energética da Europa, principalmente pela sua localização e infraestrutura de acolhimento e
exportação para o restante do continente.

Nesse contexto, faz-se necessário refletir as oportunidades para o Brasil no fornecimento de energia para a Europa, com destaque para as infraestruturas portuárias do Nordeste. Além dos terminais de gás, é importante destacar os recentes anúncios de investimentos em Hidrogênio Verde, notadamente nos complexos portuários de Suape, em Pernambuco; e do Pecém, no Ceará, e que se tornam variáveis consideráveis nessa equação.

Vale ressaltar que a geração de hidrogênio se dá por meio da eletrólise, utilizando-se corrente elétrica, ou seja, para que as plantas sejam realmente verdes, é necessária uma alimentação por fontes renováveis de energia, como a eólica e solar, já presentes em grande escala na região Nordeste. Haveria assim uma oportunidade para o “engarrafamento” desse hidrogênio em navios com destino a Sines? O Nordeste pode se apresentar como uma região exportadora de energia limpa? Há viabilidade nessa estratégia? Que repercussões trariam para os preços da energia no Brasil?

São fatos portadores de futuro no cenário de uma década tão cheia de incertezas, mas
também de oportunidades.

*Paulo Guimarães é Economista, doutorando pela Universidade de Lisboa e sócio-diretor da Ceplan Consultoria Econômica 

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