Artigo de Jorge Jatobá, Economista e Sócio da CEPLAN, publicado originalmente no Jornal do Commercio de 19 de maio de 2020.

O país, além de crise sanitária com seus severos desdobramentos econômicos e sociais, vivencia também crise política que se aproxima de conflito institucional. Na ausência de vacina e de medicação eficaz, restou às autoridades de saúde adotar o isolamento social para evitar o colapso do sistema frente a uma curva crescente e letal de contaminação pela covid-19. O Presidente, infelizmente, boicota por meio de pronunciamentos, atitudes, mudanças de ministros da saúde, decretos contestados pelo STF e posturas anticientíficas, a política do distanciamento, contrapondo-se às medidas de governadores e prefeitos. Temos, adicionalmente, uma crise de governança e de liderança.

Nem sequer palavras de solidariedade dirigidas às famílias dos brasileiros que morreram ou que estão contaminados pelo vírus, Bolsonaro se dignou a fazer. Suas atitudes atendem aos interesses de alguns empresários que constituem sua base política de apoio e que desejam, em desrespeito ao valor da vida humana, abrir precocemente as atividades econômicas não essenciais. Essa postura gera crise de coordenação entre os entes federativos os demais poderes tão necessários no combate eficaz à pandemia.

Nas arenas política e familiar, Bolsonaro está mais preocupado com sua reeleição e proteção dos filhos investigados por possíveis atos ilícitos do que em proteger os brasileiros da covid-19. Na primeira, tenta transferir aos governadores os custos do isolamento social e, na segunda, conforme denúncia do ex-ministro Moro, ao buscar intervir na PF, deflagrou crise política, dentro e fora do governo, contaminando inclusive os militares.

A situação fiscal deteriorou-se, dificultando a aprovação da agenda de reformas tão necessárias para equilibrar, nos médio e longo prazos, as contas públicas e elevando o déficit primário de R$ 124 para R$ 500 bilhões, em 2020. Os recursos aplicados montam a 4,1% do PIB, percentual, todavia, bem inferior àqueles aplicados nos Estados Unidos (5,8%) e à média da União Europeia (entre 8% e 15%).

O desequilíbrio do núcleo político-ideológico do governo e o caráter autoritário e anticientífico do Presidente geram crises frequentes ao emitir opiniões e tomar decisões desestabilizadoras. Não bastassem os desafios sanitários, econômicos e sociais, um Presidente impetuoso lança o país numa crise de liderança e de coordenação em momento tão dramático da história do país.

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Obs.: O artigo expõe a opinião pessoal do autor e não necessariamente reflete a opinião da empresa ou dos demais sócios.

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