A importância dos Experimentos Naturais em Economia

Artigo escrito por Juliana Guimarães e publicado originalmente no Movimento Economômico no dia 22 de outubro de 2021

Juliana Guimarães, economista*

O prêmio Nobel de Economia de 2021 saiu agora em outubro para três economistas do trabalho: David Card, Joshua Angrist e Guido Imbens.  Suas contribuições, desde a década de 90, extrapolaram a do campo da economia do trabalho. Todos três, de uma forma ou de outra, mudaram radicalmente a forma de olharmos para a inferência em economia e ciências sociais como um todo.

O grande desafio para um cientista social ao estudar o efeito de um evento, uma política pública ou industrial é lidar com causa e efeito.  O exemplo mais clássico quando pensamos no trabalho de Angrist é investigar o efeito da educação na produtividade e salários dos indivíduos. Essa pergunta é de vital importância não só para governos, mas também para firmas, assim como jovens e pais que estão interessados em saber a importância da educação para sua formação. No caso de Card, sua grande contribuição começou quando, juntamente com Krueger, investigou o efeito do salário mínimo no emprego, ou da imigração nos salários e no emprego locais. 

Essas são questões difíceis de responder por que simplesmente não conseguimos ter base de comparação. Por exemplo, não conseguimos observar um indivíduo que tenha ao mesmo tempo diploma de grau superior, ou não tenha instrução alguma.  Assim como saber o efeito da educação na sua renda futura? Ou ainda, é impossível observar uma região que ao mesmo tempo sofra aumento de salário mínimo ou não tenha aumento de salário, como forma de ver o efeito desta variação no mercado local.

O que observamos na realidade, no âmbito da educação por exemplo, são pessoas com diferentes graus de instrução na sociedade, mas que provavelmente fizeram a decisão de quantos anos de escolaridade iriam cursar, baseada em situações completamente diferentes, desde condições socioeconômicas distintas, a restrições financeiras e/ou níveis cognitivos diferentes. 

O que observamos se compararmos salários e níveis educacionais da população como um todo, são os ganhos salariais a cada ano adicional de escola, sem saber se foi a escola que causou esse ganho de salário, ou a habilidade cognitiva do indivíduo, ou a motivação, citando apenas alguns possíveis fatores não observáveis aos olhos do investigador. Ou seja, não conseguimos separar o efeito dos anos de escolaridade de outros fatores que possam estar influenciando os ganhos salariais. 

Note que se um indivíduo que teve 16 anos de escolaridade ganhar mais comparado a outro que tenha cursado 13 anos, pode ser que esse ganho advenha de uma maior facilidade nos estudos, ou mais apoio em casa. Ou seja, pode ser que este ganharia maior salário, mesmo com 13 anos de escolaridade, simplesmente porque tem uma habilidade maior, ou uma maior rede de apoio familiar, etc. Assim a pergunta que fica é: como investigar uma questão de tamanha importância, sem enfrentarmos um viés de seleção nos nossos resultados?

A contribuição de Card, Angrist e Imbens, foi conseguir achar mecanismos para responder essas questões de forma a livrá-las de possíveis viés. Joshua Angrist e Alan Krueger (já falecido) conseguiram olhar o efeito de escolaridade na renda salarial usando experimentos naturais.  Experimentos naturais são eventos que ocorrem no dia a dia das pessoas que se assemelham a experimentos aleatórios. Esses podem advir de causas naturais, como mês de nascimento ou eventos da natureza, ou ainda de mudanças institucionais, como leis ou mudanças políticas.  Experimentos naturais diferem de testes clínicos no seguinte sentido: nos testes clínicos o pesquisador tem controle total sobre a quem é oferecido o tratamento. No caso do experimento natural, o pesquisador sabe que o indivíduo tem a escolha de participar da intervenção ou tratamento ou não, o que torna a interpretação do experimento natural ainda mais difícil. A grande contribuição de Angrist e Imbens foi mostrar que, ainda que os indivíduos não sejam forçados a participar do programa ou intervenção, podemos como pesquisador, tirar conclusões de causa e efeito da intervenção com segurança. 

Para responder à questão do efeito dos anos de escola no salário do indivíduo, por exemplo, Angrist e Krueger usaram de forma muito criativa a legislação relativa à idade de término escolar nos Estados Unidos.  Em alguns estados nos EUA, o indivíduo pode deixar a escola aos 16 anos, em outros aos 17. Desde que os indivíduos nascem em meses diferentes, eles acabam completando uma quantidade diferente de anos de escolaridade. Por exemplo, indivíduos que nasceram no começo do ano e entram mais cedo na escola, passam mais anos na escola, comparados aos que nasceram no final do ano, e só irão entrar mais tarde, no início do novo ano acadêmico. 

Usando essa variação aleatória e natural do mês de nascimento, Angrist e Krueger conseguiram mostrar que de fato, indivíduos com mais escolaridade ganham em média maiores salários comparados aos que passaram menos anos na escola. Mais precisamente, cada ano adicional de escola aumentava o salário em 9%, em média. Note que, desde que ninguém escolhe o mês de nascer, o fato de o indivíduo passar mais ou menos tempo na escola, se deve ao seu mês de nascimento e legislação local, e não a escolhas que possam ter sido feitas baseadas em outros fatores não observados, como motivação e habilidade.

Outro exemplo do uso de experimento natural vem da pesquisa de David Card. Usando uma mudança na legislação, Card investigou o efeito do salário mínimo no emprego. A idéia corrente até a década de 90 era de que, maiores salários levam de forma geral a mais desemprego, devido ao maior custo salarial para firmas. Assim um aumento de salário mínimo iria por consequência aumentar o desemprego na economia.  Card, juntamente com Krueger,  usou uma mudança na legislação de salário mínimo no estado de Nova Jersey para investigar a questão. Nova Jersey aumentou o salário mínimo no início de 1990 de 4.25 dólares a hora para 5.05.  Para verificar o efeito no emprego, Card e Krueger usaram o estado da Pensilvânia como grupo de controle.  Pegando a região localizada na fronteira entre os dois estados e usando uma amostra de restaurantes de fast food, que pagam em grande parte salário mínimo, eles comparam o grupo de controle, Pensilvânia, com o grupo tratamento, Nova Jersey, que sofreu a mudança na legislação. Eles mostram que o aumento do salário mínimo em Nova Jersey, contrário ao que se pensava, não levou ao aumento do desemprego no local.

O estudo desses dois economistas, mudou a forma de olharmos como pesquisadores para o efeito de aumentos de salários no emprego, e investigarmos nuances no mercado de trabalho como, por exemplo, efeitos de monopsónio no emprego e no salário. Assim, as pesquisas e metodologias implementadas por esses três economistas, tiveram um grande desdobramento em diversos campos das ciências sociais. Graças a eles, hoje sabemos que correlação nem sempre se traduz em causalidade, e que o desenho de políticas públicas deve olhar com cuidado para as causas e efeitos reais do fenômeno investigado, com vias a não incorremos em erros custosos para população advindos de consequências inesperadas decorrentes de descuidos na investigação dos efeitos dessas políticas.

*Juliana Guimarães é economista, professora do Homerton College-Universidade de Cambridge, e sócia da Ceplan Consultoria

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