Por Jorge Jatobá – Artigo publicado originalmente no Jornal do Commercio de 06 de Abril de 2021

As consequências da pandemia sobre a vida econômica e social ainda estão sendo avaliadas. Uma delas é sobre o mundo do trabalho que já vinha apresentando, no período anterior a 2020, profundas transformações. A pandemia acelerou essas mudanças e trouxe outras. Estão ocorrendo mudanças significativas na demografia da força de trabalho quando se compara o atual cenário com o pré-pandêmico. Outras transformações, de natureza qualitativa, que estavam em curso se aprofundaram, apresentando-se nas formas como e onde o trabalho é realizado, na sua produtividade, nos requisitos de novos conhecimentos, habilidades e competências, nas relações com os patrões, a família e o capital e nas exigências de educação básica, superior e profissional.

Os impactos sobre o mercado de trabalho, que já estava fragilizado pelo baixo dinamismo econômico do período anterior à pandemia, têm sido devastadores. Comparando-se o trimestre de novembro de 2020 a janeiro de 2021 com o mesmo trimestre móvel dos anos anteriores (nov 19 a jan20), observa-se que: a) o número de desocupados cresceu 2,4 milhões; b) a população ocupada caiu 8,1 milhões; c) a população subutilizada subiu 6 milhões; d) a população fora da força de trabalho (inativa) cresceu 10,6 milhões; e) os que desistiram de procurar emprego (desalentados) aumentaram 1,2 milhões; e) o número de empregados com carteira de trabalho assinada (exclusive trabalhadores domésticos) caiu 3,1 milhões. Esses dados mostram o grau de ociosidade dos nossos recursos humanos, reflexo de como a economia está muito abaixo de seu potencial. Todas as formas de subutilização da força de trabalho atingem sobremodo as mulheres, grupos minoritários e os de mais baixa qualificação, sobretudo nos serviços que exigem presença física.

Mudanças que já estavam em curso associadas à automação e uso das tecnologias digitais se intensificaram exigindo novas formas de educação profissional, requalificação e realocação dos trabalhadores. O avanço do e-commerce devido a menor mobilidade é exemplo de mudança que está exigindo novos profissionais digitais. O trabalho remoto, praticado entre os mais qualificados, que chegou a 8% da força de trabalho brasileira no pico da pandemia não será revertido totalmente e a maior aderência ao home office vai mudar a cultura do trabalho em casa, a densidade dos deslocamentos urbanos relacionados ao ir e vir do trabalho e introduzir mudanças nas relações de trabalho com impacto nas negociações coletivas e no judiciário trabalhista.

Se novas políticas públicas de educação e de requalificação profissional não forem adotadas, entre outras, as tendências, já em curso, de agravamento da distribuição de renda e de exclusão digital e social se agravarão.

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